Revista número: 219

PREPARANDO O CICLO PASCAL

Chegamos ao tempo pascal, que devemos celebrar “como um grande domingo”. A terceira e última parte deste apanhado de orientações e sugestões tiradas dos documentos eclesiais focaliza o tempo pascal1... A finalidade é de “celebrar do melhor modo os grandes mistérios da nossa salvação e facilitar a frutuosa participação de todos os fiéis” para que a fé, comprovada existencialmente no dia a dia, encontre sua expressão e o alimento na liturgia.

Nos textos que vamos reproduzir é usada a palavra neófitos – literalmente recém-nascidos – para referir-se aos jovens e adultos que foram iniciados na vigília pascal, que também podem ser chamados de neobatizados. Por eles e por todos os fiéis rezamos na quinta-feira da oitava da páscoa: “... concedei aos que renasceram nas águas do batismo ter no coração a mesma fé e na vida a mesma caridade” (Oração do dia, Missal romano).

Sentido e duração
“A celebração da Páscoa continua durante o tempo pascal. Os cinqüenta dias que vão do domingo da Ressurreição ao domingo de Pentecostes são celebrados com alegria como um só dia festivo, antes como “o grande domingo” (PCFP, 100).

3. Domingos de páscoa
“Os domingos deste tempo devem ser considerados como “domingos de Páscoa” e têm precedência sobre qualquer festa do Senhor e qualquer solenidade. As solenidades que coincidem com estes domingos são celebradas no sábado anterior. As festas em honra da bem-aventurada Virgem Maria ou dos santos, que ocorrem durante a semana não podem ser transferidas para estes domingos” (PCFP, 101). O documento sobre piedade popular faz referência ao domingo da misericórdia no domingo de páscoa. Sua origem está em “uma devoção particular à misericórdia divina dispensada por Cristo morto e ressuscitado, fonte do Espírito que perdoa o pecado e restitui a alegria de sermos salvos”. Onde existe tal devoção, “os fiéis sejam educados a compreender tal devoção à luz das celebrações litúrgicas destes dias da páscoa” (DPPL, 154).

Círio pascal
“O círio pascal acende-se em todas as celebrações litúrgicas mais solenes deste tempo, tanto à missa como em laudes e vésperas [ofício da manhã e da tarde]. Depois do dia de pentecostes, o círio pascal conserva-se honorificamente no batistério, para se acender na celebração do batismo e dele se acenderem as velas dos batizados” (CB2, 371).


Água do batismo
Se possível, a água consagrada na vigília pascal deve ser conservada e usada nos batismos durante todo o tempo pascal. A finalidade é “afirmar mais fortemente a necessária relação com o mistério pascal. É de desejar que, fora do tempo pascal, se benza a água para cada batizado, para que, pelas palavras da consagração, se manifeste, de cada vez, com toda a clareza, o mistério da salvação que a Igreja relembra e proclama” (A iniciação cristã, n. 21)3.


Rito da aspersão
Se em todos os domingos do ano podemos substituir o rito penitencial pela bênção e aspersão da água, com muito maior razão no tempo pascal. O missal prevê neste tempo uma oração própria para a bênção da água, explicitando que esta água reaviva em nós a ‘recordação do batismo e nos faz participar da alegria dos que foram batizados na Páscoa” (cf. Missal, p. 1001).


Neófitos nas celebrações dominicais
“Durante todo o tempo pascal, nas missas dominicais, os neófitos tenham reservado um lugar especial entre os fiéis. Procurem eles participar nas missas juntamente com os seus padrinhos. Na homilia e, segundo a oportunidade, na oração universal, faça-se a menção deles” (PCFP, 103). Mesmo nas comunidades que não podem ter celebração eucarística todos os domingos podem ser observadas tais orientações.
São tão importantes essas missas para a mistagogia que são chamadas “missas pelos neófitos”. Pontua o ritual da iniciação: “Nessas, além da reunião comunitária e da participação nos mistérios, os neófitos encontram, sobretudo no ano ‘A’ do lecionário, leituras particularmente apropriadas”. Os mesmos textos podem ser usados quando a mistagogia não coincide com o tempo pascal (RICA, n. 40)

Tempo de mistagogia
O tempo pascal é tempo de mistagogia para toda a comunidade e reservado à mistagogia dos neófitos. As indicações para os catequistas e pastores estão no ritual da iniciação (PCFP, n. 102). E aqui vai a primeira: A finalidade desse tempo é aprofundar a compreensão e a vivência do mistério pascal4. A mediação não é algo extraordinário, mas sim a meditação do evangelho, a participação na eucaristia e a prática da caridade. A comunidade – a cada ano - progride nesse aprofundamento e a ela se unem os neófitos (RICA, 37).
A mistagogia é compreendida como “conhecimento mais completo e frutuoso dos ‘mistérios’” [grifo nosso]; aponta, assim, para a compreensão e igualmente para a eficácia dos sacramentos, ou seja, a mudança da pessoa no seu interior e nas suas relações. Assim sendo, o principal meio que realiza a mistagogia é a própria experiência dos sacramentos e, a seguir, as novas explanações feitas pelas homilias e pelos encontros de catequese (cf. RICA, n. 38). A participação nos sacramentos favorece a compreensão da Palavra e o relacionamento com as pessoas, inclusive “relações mais estreitas” com membros da comunidade. Os neófitos adquirem, assim, “novo impulso e nova visão das coisas” (n. 39). O tempo de mistagogia visa, portanto, acompanhar “os primeiros passos dos neófitos na vida cristã” e “assegurar-lhes uma completa e feliz integração na comunidade” (RICA, 235).

Celebração da Palavra: Dia do Senhor
Os nossos documentos não se referem à celebração dominical da Palavra, mas não podemos deixar de mencioná-la dada a sua importância para as nossas comunidades que celebram na ausência de presbíteros. O Dia do Senhor oferece boa alternativa, levando em conta o específico deste tempo, também o Ofício Divino das Comunidades.


Batismo e primeira comunhão das crianças
Uma prática ainda não comum entre nós incentiva o documento: “... é muito oportuno que as crianças recebam a sua primeira comunhão nestes domingos pascais” (PCFP, 103). O tempo, as orações, as leituras e os cantos do tempo pascal são o “contexto” litúrgico natural para a primeira comunhão, sem falar da pertinência da quaresma como preparação imediata.

E as crianças não batizadas, pertencentes ao mesmo grupo catequético? Recomendamos que os pastores e catequistas leiam atentamente o capítulo 5 do ritual da iniciação (RICA, n. 306-369). Aí há um rito de instituição dos catecúmenos e outro de escrutínios, além da celebração dos sacramentos de iniciação. Trata-se de ritos apropriados às crianças, como vimos no artigo sobre o tempo da quaresma. De forma alguma podemos batizar as crianças (em idade de catequese) e os adolescentes com o ritual das crianças.
Resumindo o que diz o ritual da iniciação (e conciliando as orientações com as possibilidades reais), os grupo de catequese poderiam fazer sua primeira comunhão em um domingo do tempo pascal, na mesma missa, unido à profissão de fé de todos, os catecúmenos (crianças ou adolescentes) seriam batizados (eventualmente crismados, de acordo com a idade) e fariam também a primeira comunhão5.

Primeira semana de mistagogia
Todo o tempo pascal é tempo de mistagogia para a comunidade e para os neófitos, como veremos abaixo. A oitava, nos primórdios da Igreja, era relacionada ao costume dos neófitos de irem à igreja vestindo as mesmas túnicas do batismo: semana in albis. Talvez não seja possível, atualmente, que eles participem das missas durante a semana (e mesmo será difícil uma comunidade organizar uma semana inteira de celebrações eucarísticas). Poderiam ser organizadas celebrações da Palavra ou ofícios. E por que não a presença dos neófitos com roupa branca?
De qualquer forma, para toda a comunidade, essa é uma semana de mistagogia, de progresso na compreensão e na vivência do mistério pascal (cf. RICA, n. 38).


Oitava e doentes
Durante todo o tríduo pascal há uma preocupação com os doentes, para quem é reservado o pão consagrado, como primeira finalidade. Recomendase, sobretudo na oitava da Páscoa, que a sagrada comunhão seja levada aos doentes (PCFP, 104).

Preceito pascal
Lembra o documento uma prática que deixou de ser comum nas paróquias: “Durante o tempo pascal os pastores instruam os fiéis, que já fizeram a primeira comunhão, sobre o significado do preceito da Igreja de receber neste tempo a Eucaristia” (PCFP, n. 104)6. Esse é o terceiro mandamento da Igreja (“Receber o sacramento da eucaristia ao menos pela páscoa da ressurreição”) e quer garantir o “mínimo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1389).
Antes do Concílio, organizava-se as diversas “páscoas”: a páscoa dos homens, a páscoa das mulheres, a páscoa da juventude, a páscoa de determinada categoria profissional... Embora criticável essa prática em vários aspectos, é interessante enquanto tenta atingir – sem discriminação - aqueles que estão ou vivem afastados da eucaristia ou mesmo da comunidade. Admite, apesar de tudo, que haja uma pertença à Igreja (expressa inclusive na comunhão eucarística) sem freqüência à assembléia dominical.

Visita e bênção das famílias
“Onde houver o costume de benzer as casas por ocasião das festas pascais, tal bênção seja feita pelo pároco ou por outros sacerdotes ou diáconos por ele delegados. É esta uma ocasião preciosa para exercitar o múnus pastoral. O pároco faça a visita pastoral a cada família, tenha um colóquio [uma conversa] com os seus membros e ore brevemente com eles, usando os textos contidos no Ritual das bênçãos [RB]. Nas grandes cidades veja-se a possibilidade de reunir mais famílias, para juntas celebrarem o rito da bênção” (PCFP, 105; cf. DPPL, 152).

Costumes populares
“Segundo a diversidade dos lugares e dos povos, existem muitos costumes populares vinculados com as celebrações do tempo pascal, que às vezes suscitam maior participação popular que as mesmas celebrações litúrgicas; tais costumes não devem ser desprezados, e podem muitas vezes manifestar a mentalidade religiosa dos fiéis. Por isso, as conferências episcopais e os ordinários do lugar [bispos] cuidem de que estes costumes, que podem favorecer a piedade, possam ser ordenados do melhor modo possível com a liturgia, estejam impregnados do seu espírito e a ela conduzam o povo de Deus” (PCFP, 106).

Aprendendo com a festa do Divino
As informações que temos é da festa do Divino Espírito Santo, promovida por imigrantes da Ilha Terceira (Arquipélago dos Açores, Portugal) e seus descendentes, na cidade do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense. Em outras regiões do Brasil, a tradição foi recriada pelas culturas locais, ao longo dos séculos, e está viva nas diversas folias. Trata-se de uma iniciativa de leigos organizados em “irmandade”, ao mesmo tempo autônoma e eclesial, com espaços e ritos próprios. O Espírito Santo é representado por uma coroa de metal, que sustenta um cetro encimado por uma pomba. Aproximando-se do altar e tomando o cetro, o devoto beija a pomba e a encosta em sua testa, suplicando as luzes do Espírito. A cada ano, uma família que tenha feito a promessa e tenha recebido graças de Deus, é encarregada de preparar a festa. Entre os lavradores portugueses recolhia-se animais e cereais. Agora, no meio urbano, durante o tempo pascal há uma coleta de doações em dinheiro, nas casas dos devotos. A partir de pentecostes, aos domingos, acontece a festa: procissão, fogos, reza do terço, jantar farto e gratuito, música e dança, quermesse. Adultos e crianças agraciadas, pertencentes à família “festeira” são coroadas com coroas do Divino. Parte das doações dos devotos são usadas nessa festa e parte é usada na compra de alimentos para os pobres. Pena que os mais pobres não sejam também coroados e nem convidados a sentar à mesa com os que patrocinam a festa...


Encontro entre bispo e neófitos
“Iniciando o relacionamento pastoral com os novos membros de sua Igreja, cuide o bispo, principalmente se não pode presidir aos sacramentos da iniciação, de ao menos uma vez por ano, na medida do possível, reunir os neófitos e presidir à eucaristia...” (RICA, n. 239). O mesmo é recomendado para as crianças e adolescentes (RICA, n. 369.4). Uma iniciativa que se torna urgente em cada diocese e que poderia ser um encontro com celebração da eucaristia. Nesse encontro, com a presença de catequistas, introdutores e, eventualmente, os padrinhos, os neófitos são apresentados, podem ser programados testemunhos, cantos, projeção de imagens... Em Duque de Caxias e S. João de Meriti, na Baixada Fluminense, tem sido feito na vigília de pentecostes, por enquanto somente com jovens e adultos. Vale a pena!

Celebração e festa com os neófitos
Uma indicação relacionada aos adultos e crianças que fizeram o caminho do catecumenato: “No encerramento do tempo da mistagogia, nas proximidades do domingo de pentecostes, faça-se alguma celebração segundo os costumes da própria região” (PCFP, 103). O ritual da iniciação fala também de “festividades externas” nessa celebração (RICA, n. 237 e 369.2). Há comunidades que fazem um passeio comunitário no tempo pascal. Outras fazem uma ou mais festinhas, sem visar arrecadação de recursos, mas simplesmente a confraternização. E como o “dia nacional” das festinhas é o sábado, esse encerramento poderia ser feita com a celebração do ofício de vigília (vésperas), com dupla finalidade: para os neófitos, conclusão do tempo da mistagogia, para os demais, festividade pascal.

Novena de pentecostes e semana da unidade
A novena de Pentecostes, muito difundida entre o povo cristão, surgiu para relembrar a “oração perseverante da mãe de Jesus e dos irmãos dele” na espera de serem “revestidos com a força do alto”. Realiza-se, em geral nos dias que vão da Ascensão a Pentecostes, que “servem de preparação à vinda do Espírito Santo” (CB, 375), coincidindo com a semana de oração para a unidade dos cristãos. Quando for possível, a novena de pentecostes seja a própria celebração das vésperas que já relembra, de diversos modos, a espera do paráclito (cf. DPPL, 155).

Domingo de pentecostes e vigília
“O tempo pascal encerra-se no 50º dia, com o domingo de pentecostes, que comemora a efusão do Espírito Santo sobre os apóstolos (cf. At 2,1-4), os primórdios da Igreja e o início de sua missão a todas as línguas, povos e nações”. A “celebração prolongada da missa da vigília”, antes incentivada, agora “assumiu grande importância”, sobretudo na igreja catedral e nas paróquias. Essa celebração “... reveste o caráter de intensa e perseverante oração de toda a comunidade cristã, a exemplo dos Apóstolos reunidos em oração unânime com a Mãe do Senhor”. Exorta à oração e à missão (DPPL, 156; cf. PCFP, 107).

Tipos de vigília
Em algumas regiões do Brasil, há comunidades que vêm realizando, como abertura da festa de pentecostes, vigílias prolongadas, mesmo sem a possibilidade de celebrar a eucaristia; ou fazem a celebração, no começo ou no fim, de acordo com a disponibilidade do padre. A vigília geralmente é longa: pode ser de três horas ou pode durar uma noite toda. Em algumas comunidades são convidados membros de outras igrejas cristãs para uma experiência de ecumenismo. Quanto ao estilo, há vigílias onde a música tem um papel fundamental de envolvimento da assembléia e de experiência do sagrado; os cantos são permeados de motivações, mensagens, pregações e testemunhos; às vezes se inclui nessas vigílias momentos de adoração eucarística. Esse estilo começou com os movimentos de juventude, católicos e evangélicos, na década de setenta e foi prosseguido pelo movimento carismático. É muito atraente, mas parece não alimentar os diversos estágios da vida cristã. Outro tipo, surgido na década seguinte, prioriza a formação; a música é de animação e mensagem; além dos momentos de escuta da Palavra e de oração, há palestras, trabalhos em grupos, plenários, encenações, vídeos... Esse modelo, mesmo tendo temas pertinentes e relevantes, deixa a desejar em termos de vigília de oração; seria mais eficaz como encontro, durante o dia.


Vigília orante e comprometida
Os modelos descritos anteriormente colaboram na elaboração de um terceiro modelo: uma vigília orante e ao mesmo tempo comprometida. Orante: Como? Em primeiro lugar, criar um ambiente físico e humano adequado. Os refrãos orantes podem ser mais demorados. Pode-se usar a abertura oferecida pelo Ofício Divino das Comunidades, inclusive com acendimento de velas e oferta de incenso. A recordação da vida pode ser feita por uma ou mais pessoas, previamente apontadas, focalizando preocupações comuns. Hinos bem escolhidos e executados. Tempo especial para salmodia e orações sálmicas. Liturgia da Palavra mais desenvolvida, eventualmente com partilha da Palavra. Finalmente, envolvimento dos participantes (independente do tamanho da assembléia) de diversos modos: silêncio, canto, “cochicho”, testemunho, partilha da vida e da Palavra e oração em pequenos grupos, etc. Comprometida deve ser a vigília de pentecostes e qualquer outra vigília cristã, ou seja, aberta à causa dos pobres e às grandes causas da humanidade. É preciso que essas causas estejam “latentes” em toda a vigília e, quando tematizadas, que seja sempre na linguagem religiosa.


Segunda e terça-feira depois de pentecostes
“Onde na segunda ou também na terça-feira depois de pentecostes os fiéis devam ou costumem ir à missa, pode-se retomar a do domingo de pentecostes ou a missa do Espírito Santo” (Missal Romano, Domingo de pentecostes). Os paramentos, neste caso, são vermelhos.