Revista número: 217
Conversando sobre o Ofício Divino das Comunidades
Vamos continuar nossa conversa, em
forma de entrevista, dando a palavra à Penha
Carpanedo, que fez parte da equipe que
elaborou o Ofício Divino das Comunidades
(ODC), e apresentou dissertação de mestrado
sobre a sua inculturação. Ela partilha conosco
o resultado do seu encontro, com grupos e
comunidades, celebrando e aprofundando a
teologia e a espiritualidade do Ofício Divino
das Comunidades.
RL: Desde o surgimento do Ofício Divino
das Comunidades (ODC), até agora, como
você sente evoluir a inculturação da Liturgia
das Horas no Brasil?
Penha: O Ofício Divino das Comunidades
possibilita uma oração cotidiana conforme
a tradição da Igreja, de rezar com salmos e
outros cânticos bíblicos, no ritmo das horas
e dos tempos do ano litúrgico, com uma
linguagem acessível às nossas comunidades.
Depois de 20 anos desde a primeira edição,
tornou-se uma referência reconhecida nas
comunidades eclesiais do nosso país. E de
certa forma ele cresceu com a prática das
comunidades.
RL: Quais elementos destacaria na
proposta ritual do ODC como inculturadas?
Penha: Destaco dois elementos que me
parecem fundamentais:
O primeiro é a preocupação de adequar
a linguagem dos textos, os ritos e o estilo
da celebração ao modelo eclesial (teologia e
prática) assumido por nossas comunidades
a partir do Concílio Vaticano II e de Medellín.
Parte-se do princípio que a inculturação da
liturgia não é uma tarefa isolada, mas tem a
ver com a inserção da Igreja no mundo, com a
sua missão. Como bem formulou o liturgista
filipino, Anscar Chupungco, a inculturação
“não é apenas problema antropológico, mas
também teológico, pois tange tudo o que toca o
relacionamento entre Deus e o seu povo”. Esta
preocupação perpassa todo o Ofício. Aparece
nos hinos, nas orações, nas preces, nas introduções
aos salmos etc. Aparece especialmente
na Recordação da vida, introduzida para explicitar
a relação entre o mistério pascal vivido
no dia a dia e a celebração litúrgica.
Outro importante destaque é a inclusão
de elementos da piedade popular, realizando
concretamente a ‘mútua fecundação’ entre
liturgia e religião popular. E não apenas
incorporando elementos externos, mas procurando
corresponder à piedade e ao “fervor
espiritual” do povo; aos “anseios de oração e
de vida cristã”, tão característicos da piedade
popular.
RL: Poderia dar exemplos de repercussões
da piedade popular no ODC?
Penha: As repercussões da piedade
popular podem ser percebidas no próprio
estilo do ofício. A ritualidade e a singeleza da
celebração, com seu tom coloquial, sem muitas
palavras explicativas, centrada no mistério
pascal de Jesus, com seus salmos, hinos e
orações em linguagem acessível, encontra
eco na piedade do povo, com sua capacidade
contemplativa e sua atitude de confiança em
Jesus. Além disso, um exemplo concreto são
as aberturas: com seu conteúdo bíblico e
estrutura dos benditos populares em formato
de repetição, traduzem com muita propriedade
o sentido teológico do invitatório. Respeitando
sua forma responsorial, possibilita o diálogo
e conduz à oração. A repetição foi bastante
valorizada na elaboração dos diversos
elementos que compõem o ODC, libertando
a oração do papel e dando razão ao aspecto
oral da piedade popular. É um dos elementos
que mais agrada o povo e realmente convida
a entrar na oração. Outro exemplo são os
hinos - “cai a tarde o sol se esconde”, “pecador
agora é tempo” e outros mais – tomados do repertório popular. Poderíamos ainda falar da
dimensão relacional, de aliança, que cria um
clima orante, comum à liturgia e à piedade
popular.
RL: Em que medida esta ritualidade tão
presente na prática celebrativa do ODC
responde à exigência de inculturação.
Penha: Sendo o Ofício Divino uma ação
litúrgica como as demais celebrações da Igreja,
tem dimensão comunitária e sacramental,
pois se compreende como ação simbólica que
expressa a salvação de Deus (ofício divino),
mediante sinais sensíveis, que significam e que
realizam o que significam (cf. SC 7). E quando
é que um sinal é sensível? Quando atinge a
pessoa em sua corporeidade, culturalmente
situada. No ODC não há muitas indicações
e detalhes a respeito dos gestos, símbolos e
ritos. Entretanto, na prática, foi nascendo
um estilo de celebração coerente com o
jeito de celebrar de nossas comunidades,
como resultado da relação entre liturgia e
modelo eclesial e da ‘mútua fecundação’
entre liturgia e religiosidade popular. Nas
celebrações do ODC se valoriza a gestualidade,
o movimento, o cuidado com o espaço e com
os diversos elementos que o compõem, o bom
desempenho dos ministérios (presidência,
leitores/as, cantores/as, acólitos/as...) A
verdade dos sinais tem como exigência, entre
outras coisas, a incultaração, para que o
povo possa se reconhecer na oração e de fato
possa acompanhar as palavras com a mente
atenta e participar com consciência, ativa e
frutuosamente (cf. SC 11).
RL: A inculturação leva a situar o ODC
numa cultura e num tempo, isso não limita
a experiência litúrgica?
Penha: O Concílio Vaticano II estabeleceu
princípios teológicos e pastorais que estão na
base de toda a reforma da Igreja e da Liturgia.
Um destes princípios é o da adaptação aos
tempos modernos e às culturas de cada
povo. Compreendeu que para ser universal
precisa ser capaz de adequar-se ao particular,
naturalmente sem perder a referência da
tradição. O ODC reproduz de maneira
simples e inculturada, acessível ao povo de
nossas comunidades, os mesmos elementos
e estrutura da Liturgia das Horas, a mesma
teologia e espiritualidade.
O ganho é imenso: a oração da Igreja se
torna popular, e a oração do povo se enriquece
com a herança da tradição bíblica e eclesial.
Pensemos por exemplo na música. Grande
parte das músicas tem sua inspiração nas
raízes melódicas da nossa cultura. Muitas
foram recolhidas do repertório musical
produzido a partir da reforma do Concílio
Vaticano II, que representa grande conquista
em busca da música ritual em ritmo e estilo
brasileiros. O próprio Geraldo Leite, um dos
autores das músicas do ODC, escreveu:
“Nossa música é toda uma mistura de
melancolia e esperança, de ritmos e saudades,
de alegria e de dores, de África e de Brasil”. As
composições não estão sujeitas aos modismos,
pois são de grande qualidade melódica e
textual, permanecendo válidas pela sua
autenticidade. Portanto, a inculturação não
representa limitação, mas enriquecimento
mútuo, pois descobre na cultura local o que
existe de mais precioso e valoroso.
RL: Como a experiência inculturada da
Liturgia das Horas pode colaborar na vivência
espiritual do mistério de Cristo em nossas
comunidades?
Penha: Com séculos de separação entre
espiritualidade e liturgia é preciso aprender
de novo a viver a liturgia como fonte de espiritualidade
(cf. SC 14); é preciso aprender
a participar, prestando atenção nas palavras
ditas ou cantadas, nas palavras que acompanham
as ações simbólicas; é preciso aprender
de novo a guardar no coração o que recebemos
de Deus na assembléia litúrgica para
viver existencialmente em nosso cotidiano.
Ao mesmo tempo vamos redescobrindo que a
liturgia, para além da razão, vai misteriosamente
moldando e transformando o coração
das pessoas e a vida de comunidade.
Não tenho dúvida de que o ODC caminha
nesta direção. Reproduzindo a Liturgia das
Horas, valendo-se da linguagem do nosso universo
simbólico, o ODC constitui uma experiência
vital do mistério pascal, e desta maneira
torna-se alimento da oração e da devoção
pessoal conforme pedia a Constituição sobre
a liturgia (Cf. SC 90) e como recomendou
Paulo VI, na Constituição Apostólica Laudis
Canticum: que a celebração do Ofício pudesse
“adaptar-se, quanto possível, às necessidades
de uma oração viva e pessoal” (cf. n. 8).