Revista número: 217

O que liturgia tem a ver com ecologia?

1. Ecologia numa Semana de Liturgia

Na Revista de Liturgia, n. 209, de setembro- outubro de 2008, saiu um artigo meu com o título Ecologia e Liturgia. De alguma forma aquele artigo motivou a proposta feita pelos participantes da 22ª Semana de Liturgia em outubro de 2008 para a Semana no ano seguinte: muitos sugeriram o tema ´ecologia´. A equipe do Centro de Liturgia aceitou a proposta, colocou como tema da 23ª Semana ´Liturgia e Ecologia´ e convidou três assessores para tratar do assunto: Roberto Malvezzi - a partir de sua experiência com as Romarias da Terra e das Águas e a questão do Rio São Francisco1 -, Frei Luiz Carlos Susin - renomado teólogo, para nos situar na ´eco-teologia´, ou seja, como a teologia (principalmente o tratado ´Deus Criador´) leva em conta a ecologia2 - e eu, para aprofundar a relação entre liturgia e ecologia, tanto do ponto de vista teológico-litúrgico, quanto prático-celebrativo. Meu tema ficou assim definido: Elementos para uma eco-teologia e espiritualidade litúrgica (Apontamentos em busca de -). Baseado no texto apresentado na Semana de Liturgia, serão publicados, nesta revista, vários artigos ao longo de 2010. Pode ser uma forma de nos preparar melhor para a CF 2011 que terá como tema “Fraternidade e a vida no planeta” e o lema “A criação geme em dores de parto”.

2. A dupla face da ecologia

Mas, afinal, o que justificava a escolha do tema ´ecologia´ para uma Semana de Liturgia? O folder que convidava para a Semana, já havia aludido a esta relação: Dois fatos provocam nossa maneira de celebrar e nossa reflexão teológico-litúrgica: a crise ecológica e a nova visão científica do cosmos. A crise ecológica está na pauta do dia - nos noticiários, em congressos e fóruns, em agendas sociais, políticas e científicas. A nova cosmologia aponta para a inter-relação e interdependência de todas as coisas. Nós, os humanos, somos parte de um todo, parte indissociável do cosmos. Como podemos celebrar em nossas liturgias o mistério da salvação, o mistério da páscoa e da comunhão com Deus sem levar em conta esta dupla realidade? Como, a partir da pedagogia litúrgica, poderíamos contribuir para uma sensibilidade, consciência e compromisso ecológicos? Certamente, não basta cuidar um pouco mais dos elementos cósmicos e culturais que permeiam a liturgia, como água, vento e sopro, fogo e luz, óleo, pão e vinho... É preciso repensar os dados de nossa fé no Deus Criador/Salvador/Vivificador. É preciso reelaborar a teologia litúrgica, incluindo a dimensão cósmica, ecológica. É preciso sintonizar a espiritualidade litúrgica com a ´ecologia profunda´, interior, espiritual.

Durante a Semana, várias vezes nos foi mostrada a imagem da terra no espaço, no universo. Lembramos que somos a primeira geração a ver a terra de fora dela, do espaço. Através de fotografias tiradas pelo telescópio ´Hubble´, tomamos consciência da insignificância de nossa ´casa comum´ (oikos), como que perdida na imensidão do universo, e ao mesmo tempo nos demos conta da beleza e da incrível complexidade da criação, da maravilha que é nossa história cósmica e a vida na terra, em todos os seus detalhes, que vem sendo descoberta dia-a-dia em novas pesquisas científicas. Mas lembramos também a terrível e ameaçadora crise ecológica na qual nos encontramos, devido à destruição, devastação, exploração desmedida realizada pelo ser humano, principalmente de ´cultura´ ocidental, gerando aquecimento global, furacões, tsunamis, inundações, tornados... Diante desta realidade, somos levados a duas atitudes complementares: de um lado, a admirar, contemplar, cuidar, usufruir, sentir-nos parte desta realidade maravilhosa da criação...; de outro lado, a tomar consciência, fazer a conversão, mudar nosso estilo de vida, assumir nossa responsabilidade diante da tragédia que cresce a cada dia. Passagens evangélicas sobre o ´fim do mundo´ que antes ouvíamos com um ouvido talvez distraído, de repente chamam nossa atenção pela sua atualidade: “Nos dias antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e se davam em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam até que veio o dilúvio e arrastou a todos.” (Mt 24,38-39) – “As nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas.” (Lc 21,25-26). Nas Sagradas Escrituras, no entanto, estas alertas terminam em uma boa notícia: o mundo caduco dará lugar a algo novo, ´novo céu e nova terra´, diz o Apocalipe. Por isso, nos convidam à vigilância e à conversão, porém, sem desespero.

3. Eco-teologia

As tradições religiosas e espirituais influenciam - para não dizer ´criam´ e sustentam - a imagem que temos de nós mesmos/ as, a imagem de Deus, do mundo, e de nosso lugar no cosmos... Até que ponto estas imagens combinam com a nova visão científica? Até que ponto nos ajudam ou atrapalham em assumir nossa responsabilidade na realidade atual? O paradigma ecológico exige um repensar de toda a nossa teologia: teologia da criação, da redenção, da escatologia, da atuação do Espírito, da noção de ´ser humano´, da corporeidade, da salvação, da atuação do ser humano em relação ao cosmos, em relação à história da humanidade, do papel das tradições religiosas, da Igreja, da liturgia... Nós, cristãos, e as outras tradições espirituais, podemos colaborar com o movimento ecológico, na medida em que reconhecemos a sacralidade da criação. Ela traz as marcas das mãos de Deus, de um Deus amoroso, que cria por um bem-querer, gratuitamente, nos dizia Frei Susin, lembrando a teologia de Duns Scotus. 3 Este bem-querer, este amor sem limites manifestou-se plenamente em Jesus. A mensagem cristã da ressurreição, da profecia do ´novo céu e nova terra´, do Reino de Deus, são a base de nossa esperança, confiança e luta.

Eucaristia, ecologia e economia A apresentação das oferendas na liturgia eucarística vem acompanhada de uma bênção significativa: “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão (pelo vinho) que recebemos de vossa bondade, fruto da terra (fruto da videira) e do trabalho humano, que agora vos apresentamos e para nós se vai tornar pão da vida (vinho da salvação)”. Bendizemos ao Deus do universo pelo dom do pão e do vinho; estes simbolizam as forças do cosmos e todas as iniciativas e esforços dos seres humanos, possibilitando nossa sobrevivência. E qual é o destino destes alimentos na liturgia eucarística? São assumidos “naquele sacramento da fé, no qual os elementos da natureza, cultivados pelo ser humano, se convertem no Corpo e Sangue de Cristo glorioso, na ceia da comunhão fraterna”.5 Ceia de comunhão fraterna! Ou seja, o pão e o vinho eucarísticos, sinais memoriais do Corpo e Sangue de Cristo, de sua doação total que o levou à morte de cruz e à glorificação no Amor, são partidos e repartidos entre nós, para que nos tornemos em Cristo e no Espírito um só Corpo. E os Atos dos Apóstolos nos apresentam a primeira conseqüência disso: “Os cristãos tinham tudo em comum, dividiam seus bens com alegria...” – “E todos repartiam o pão e não havia necessitados entre eles”. 6 O corpo eclesial, nascido e alimentado no memorial eucarístico, preocupa-se com o corpo social: que haja igualdade e que ninguém passe necessidade. Mas é preciso preocupar-se também com a vida do planeta sem a qual não haverá nem pão, nem vinho, nem vida humana. E é assim que eco-nomia e eco-logia se encontram na eucaristia. O ‘crescimento econômico’ não pode colocar em perigo a sobrevivência da Mãe Terra, nem continuar gerando ‘ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais miseráveis’. ‘ Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro...!’ (CF. 2010).

4. O poder do rito

Gostei que Frei Susin falou do “poder do ritual”, pois na teologia em geral ignora-se a liturgia. Baseado no antropólogo Victor Turner, falou do poder ´invocacional´, o poder de cura e cuidado, o poder de antecipação, e o poder pedagógico do ritual. A liturgia é a fé cristã expressa em ação ritual, em corpo e espírito, em ´barro e brisa´ e, na força do Espírito, é capaz de nos transformar. Descobrimos nesta Semana ´o potencial ecológico da liturgia´, no sentido de que ´tudo está aí´, como exclamou alguém no plenário. E vimos como podemos e devemos fazer uma releitura eco-teológico-litúrgica dos textos e ritos da tradição litúrgica e viver todas as ações litúrgicas a partir de uma atitude ecológica profunda, sentindo-nos parte integrante do cosmos, com tudo o que existe. Retomando o termo significativo usado por Dom Adair4 em sua homilia na celebração eucarística, diria: temos que descobrir e ´garimpar´ esta dimensão ecológica dos ritos litúrgicos. E penso que devemos fazê-lo em duas áreas. Primeiro, na experiência ritual de cada um/a de nós nas celebrações litúrgicas. Vamos prestar atenção e experienciar a liturgia na sua potencialidade ecológica; vamos participar espiritualmente na liturgia e deixar- nos converter pelo Espírito (Cf. Rm 9,1-5): uma conversão ecológica de nós mesmos pela participação atenta na liturgia. Segundo, os liturgistas procurem garimpar esta dimensão ecológica também a nível de ciência litúrgica, e divulgá-la, publicando suas descobertas e influenciando na formação litúrgica em todos os níveis, nesta perspectiva ecológica. Por fim, quero retomar também a expressão usada por Pe. Gregório: devemos deixar aflorar em nós o ´potencial litúrgico do cosmos´. Não disse S. Agostinho que o ser humano é a ´boca do universo´? O cosmos se expressa em nós. Os pássaros, a água, as estrelas, todos os elementos da natureza nos convidam a dar voz humana a seu canto, a seu louvor (Cf. Sl. 150) Mas é preciso prestar atenção e expressar também os seus gemidos, como nos alerta São Paulo no capítulo 8 da carta aos Romanos. Somente com a liturgia não evitaremos o desastre ecológico. No entanto, um provérbio africano citado por Dom Moacyr Grecchi, arcebispo de Porto Velho (RO), no 12º Intereclesial de CEBs em julho passado, pode nos inspirar: “Gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares não importantes, conquistando mudanças extraordinárias”. Embarquemos nesta esperança, tecendo nos próximos artigos considerações gerais para a liturgia em perspectiva ecológica, para os momentos de celebração, formação e organização.