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Revista de Liturgia

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A luz da páscoa na noite escura do povo

Edição número 260

Depois de investir, por séculos, na dimensão de sacrifício e no valor do sofrimento, a Igreja redescobriu a centralidade da páscoa na história e a colocou como eixo de toda a teologia e, também, da sua Liturgia. Bem no coração da prece eucarística dizemos, em tom aclamativo: “anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição”. O domingo recuperou o seu lugar de páscoa semanal e a vigília Pascal retomou sua condição de expressão maior do domingo da ressurreição, com a imagem da noite iluminada, mais eloquente do que qualquer discurso.
O retorno às fontes bíblicas traz de volta à consciência eclesial a percepção de que a páscoa se realiza no espaço do nosso tempo. Ainda que a sua plenitude transcenda o aqui e agora, é no presente que nos é dado fazer a experiência da passagem do Senhor e da sua salvação. A conferência Episcopal de América Latina e Caribe, realizada em Medellín, em 1968, convoca a Igreja Latino-americana a reconhecer os sinais da páscoa na realidade do continente: “Como outrora Israel, o antigo Povo, sentia a presença de Deus quando ele o libertava da opressão do Egito, quando o fazia atravessar o mar e o conduzia à terra prometida, assim também nós, o novo povo de Deus, não podemos deixar de sentir seu passo que salva, quando se dá o ‘verdadeiro desenvolvimento, que é, para cada um e para todos, a passagem de condições de vida menos humanas para condições de vida mais humanas”. Por isso, a liturgia, que é memorial da páscoa, segundo Medellín, “comporta e coroa um compromisso com a realidade humana” e deve “manter-se numa situação dinâmica que acompanha tudo o que há de são no processo de evolução da humanidade”.
O padre José Comblin, de saudosa memória, gostava de lembrar que a redescoberta da centralidade da páscoa é o maior acontecimento para o cristianismo do século XX. Com este novo olhar, a Igreja se assume como povo de Deus e faz suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (GS 1). A fé pascal move a Igreja para fora de si mesma, faz dela
“uma Igreja em saída”, segundo o papa Francisco, e faz da liturgia cume e fonte desse dinamismo eclesial, expressão da fé em Jesus e da fé de Jesus.
A páscoa deste ano, em momento tão crucial para a humanidade, pode ser um sinal forte de esperança que reanime as comunidades a encontrar saída
para os desafios gerados pela situação política, econômica e ecológica.
Aqui no Brasil, o apelo da Campanha da Fraternidade a deter a depredação dos biomas brasileiros dá nova amplitude à conversão quaresmal que nos
conduz às celebrações pascais.